PROFº ATÔNIO JOSÉ: Crônica tem dessas coisas



E uma das coisas que me deixam danado da vida com a crônica é esse seu jeito ladino de não se dar assim tão facilmente. Grosso modo, esta é uma peculiaridade das artes e também das ciências, creio eu. Mas como não faço química fina, restrinjo-me ao universo das palavras, esse carrasco rasgo que só se entrega quando bem se entende. 



“Escrever é perigoso”


“Escrever é perigoso”, já nos advertia Clarice Lispector. Como se trata de um gênero tipicamente brasileiro, misto de literatura e jornalismo, a crônica também tem seu modus operandi, suas articulações e seu jogo de esconde-acha-esconde. Homens e mulheres deixaram suas marcas na literatura e no espírito dos leitores ao escreverem bons textos que captaram nossa essência: a de ser humano. Ora séria e reflexiva, ora duvidosa e moleca, às vezes a crônica fica por aí, de cara para a rua, a caminhar com os pedestres na orla do açude, no sorriso da morena piauiense, na traquinagem do cão com o gato, na vassoura preguiçosa de segunda-feira. E o cronista, pensativo e desocupado, doido e político, não percebe as sutilezas dos instantes.


Mas a hora vem chegando e todo homem tem a sua hora e a sua vez. A culpa é do tempo – quem inventou o relógio? O dono do portal de notícias vai me ligar a qualquer instante e me dirá com aquela voz: “Cadê a crônica, moço? Estou fechando a edição e só e falta seu material”. Penso em mentir, dizer que já fiz o texto ou que não o fiz porque a semana foi inexorável, e a inspiração/transpiração não teve paciência comigo. 


“Já vou, já vou, estou enviando o texto mais tarde”.



E tudo chega. A fatura superfaturada do cartão de crédito, a mensagem de celular da prima distante, as ondas de calor do verão, o aniversário do amigo verdadeiro, o caminhão de lixo, o carnaval do Senhor, a morte da bezerra. Só não chega a crônica que eu queria: lutar com palavras é a luta mais tchau, poeta! Devia simplesmente aceitar essas crônicas acima; estão aí reivindicando uma coluna de jornal que será lida por algum leitor sensível desta cidade. E como resposta satisfatória, o próprio leitor mandará na próxima edição uma crônica mais literária, mais brasileira do que essas velhas notícias de antemão. 


Tentativa sob tentativa


Curioso. A princípio parecia tão fácil. O pedido para atuar no jornal como cronista, a liberdade para pensar e escrever o que eu quisesse, o diálogo com o leitor do jornal impresso. E o material de trabalho, então – computador e percepções da realidade. Computadores não faltam, e se faltar, ainda existem o bom papel e velha caneta. Mas as pessoas, as histórias, as experiências, as vicissitudes do momento, as circunstâncias mais humanas possíveis!?


Eu me embruteci, foi isso? Deixei que o estresse, o corre-corre e os problemas do mundo me atingissem assim? Existe situação mais moderna que isso? Impotência. A crônica, Antonio, a crônica precisar ser escrita e enviada. Chego à redação do jornal impresso. Pedro Cavalcante lê a crônica verde e diz: “Dá pra publicar!”. Saio da casa dele pensando nos leitores e estes pensarão em mim quando se depararem com aquela crônica incipiente e dirão: “Que foi que aconteceu com o cronista este mês?”, “Acho que não estava inspirado com antes!”, “Devia ao menos escrever uma crônica sobre isso!”.


Tentei, pessoal, juro que tentei.